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sábado, 1 de agosto de 2009

Compaixão: fazer-se “um” com o que sofre

A compaixão é atributo divino. É próprio de Deus. E encanta-me a facilidade que Jesus, Deus encarnado, tem de experimentar compaixão. “Viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34).

Nós, os humanos, dificilmente experimentamos compaixão. Sentimos, mais comumente, dó ou pena. E esses sentimentos estão muito distantes dos de Deus.

Sentir pena ou dó de alguém que sofre não nos coloca no lugar desse sofredor. Continuamos longe. E rapidamente nos esquecemos de tal pessoa ao nos retirarmos de sua presença. E sem contar que, sentindo apenas dó não nos esforçamos para mudar em nada a situação de sofrimento.

Sentir pena de alguém significa sentir-se numa condição superior à daquele ser, no sentido de encontrar-se em uma situação melhor do que a dele, por não estar passando pelo mesmo sofrimento que ele vive naquele momento. A compaixão, por outro lado, conforme ensina Dalai Lama, não é sentimento que transforma os outros em seres inferiores.

Deus não tem dó nem pena de nós. Tem compaixão! Sofre junto (“paixão-com”). Sente no seu próprio ser a nossa dor, coloca-se em nosso lugar e muda nossa situação.

Entre os humanos, talvez as mães tenham uma maior facilidade em experimentar compaixão, pois, na língua de Jesus, a palavra “compaixão” está muito próxima de “útero”. Compadecer-se de alguém, então, é sentir com o útero; é experimentar com o mais profundo do próprio ser a dor do outro. E, constantemente, ouvimos relatos de mães que, se pudessem, se colocariam, em qualquer situação, no lugar de seus filhos. Provavelmente, por isso também, não seja errado afirmar que Deus é Pai e Mãe, como o fez o Papa João Paulo I em seus apenas trinta e três dias de pontificado.

Deus precisa ensinar-nos a ter compaixão. Sentir dó ou pena de quem sofre não ajuda em nada. Pelo contrário, atrapalha, pois coloca o sofredor em condições de “coitado”, incapaz. A compaixão nos faz “um” com o que sofre e nos impele a transformar tal situação.

Senhor, tem compaixão de nós! Livra-nos da mediocridade do dó e faz-nos “um” com o que sofre. Amém!

Padre Emerson José da Cunha

terça-feira, 28 de julho de 2009

PROFETA: SERVO DA PALAVRA

Os cristãos católicos, quando mergulhados nas águas do Batismo, recebem, entre outras, a missão de ser profeta. Dessa missão nunca poderão se esquivar, pois ela é parte essencial da vida cristã.

Uma concepção equivocada da figura do profeta o concebe como um visionário, um adivinho, alguém capaz de prever os fatos. Tal idéia não se ajusta ao que diz a fé cristã sobre o profeta e acaba por dificultar a vivência concreta da missão.

A fé cristã ensina que a figura do profeta é presença admoestativa e necessária para o mundo. O profeta coloca-se a serviço da Palavra e deve anunciá-la com a voz e a vida e denunciar tudo o que está em desacordo com ela. Aqui reside outra dificuldade na vivência da dimensão profética do cristianismo. O anúncio da Palavra não pode ser feito apenas por palavras; não se resume a belos discursos e eloqüentes pregações. Ele precisa estar em sintonia com a vida concreta de quem o faz. O comportamento, o jeito de ser e de viver pode “desdizer” tudo que se diz. E, além disso, aprende-se muito mais com o que se vê fazer do que com o que se ouve dizer. “As palavras movem, os exemplos arrastam.”

A denúncia, constitui também, outra dificuldade para que o cristão seja um autêntico profeta. Denunciar é comprometer-se, é “colocar a cara a tapa”, é correr o risco de sofrer. E diante de tais conseqüências, é melhor fingir que não se vê; melhor deixar tudo como está e não se atrever.

Em se tratando desse assunto, vem à nossa mente, a lembrança de Dom Hélder Câmara, Bispo de Olinda e Recife, nos anos 1964 - 1985, cujo centenário natalício celebramos neste ano. A memória desse Bispo é associada à profecia. “Isso porque Dom Hélder peregrinou pelo mundo anunciando esperança e denunciando injustiças que o ser humano cometeu contra outro ser humano, sobretudo quando da ditadura militar no Brasil. Tais denúncias eram carregadas do anúncio de Jesus Cristo com sua mensagem de salvação a toda a humanidade e o apelo à convivência fraternal. Não por acaso ele foi perseguido e rejeitado.”

O profeta olha o mundo com os olhos da fé e discerne, mesmo em meio a situações difíceis e obscuras o que Deus fala através dos acontecimentos. Embora seja uma presença que incomoda e questiona, sua ação abre caminho para a intimidade com Deus que insiste em encontrar os humanos. Isso porque a mensagem da profecia visa reconduzir as pessoas a Deus, sobretudo nos momentos em que se esquecem do sentido autêntico da fé cristã: ouvir o Evangelho e efetivá-lo na vida.

Por tudo isso, os cristãos são chamados a serem profetas e, para que efetivamente o sejam, devem ouvir assiduamente a Palavra e proferi-la com a própria vida diante dos homens e mulheres que encontrarem.

Pe. Emerson Cunha